COMO EVITAR MÁS DECISÕES

O presente artigo trata especificamente do capítulo XXIII da obra “O Príncipe” de Nicolau Maquiavel (publicada pela primeira vez em 1531) e procura refletir sobre a validade das orientações que o autor dá para os soberanos acerca dos aduladores e bajuladores.

Antes de tudo, vale ressaltar que Maquiavel é um autor muitas vezes incompreendido pelo senso comum. Até mesmo o termo que leva seu nome, “maquiavélico”, está associado a planos obscuros ou diabólicos. Porém, parece-nos que Maquiavel era muito mais uma espécie de “psicólogo comportamental” pois analisava friamente o modo como as pessoas reagiam a determinadas ações de seus governantes. É o que também defende um artigo publicado pela redação da Revista Exame:

Seu pequeno livro “O Príncipe” foi revolucionário em sua época e legou para ele, até os dias de hoje, a fama de professor de maldade. De exemplo negativo, que nenhuma pessoa de bem deveria seguir. O príncipe deve estar disposto a mentir e ser cruel quando necessário. O que poucos atentam, contudo, são as motivações de Maquiavel, não tão distantes das nossas.

O fato é que Maquiavel apresenta a política como ela é e como um político deve agir para se manter no poder. Não é à toa que Maquiavel hoje é reconhecido como o percussor da Ciência Política e sua obra continua atual.

No capítulo XXIII – Como escapar aos aduladores, Maquiavel destaca que um dos erros comuns dos príncipes é que estes aceitam com certa facilidade os homens perto de si (a quem chama de bajuladores) para serem seus conselheiros. O problema é que estes, no final das contas, facilmente estarão faltando com a verdade no intuito de agradar o príncipe. Por outro lado, Maquiavel também alerta que não é recomendável aceitar o conselho de qualquer pessoa, pois isto culminaria numa relação onde o soberano acabaria por perder o respeito.

A solução de Maquiavel é que o príncipe escolha criteriosamente alguns homens de sua confiança, dos quais aceitará ouvir seus conselhos com atenção e que se limite a atender os conselhos apenas destes.

Neste mesmo capítulo, Maquiavel alerta ainda que o príncipe deve evitar tomar decisões aleatórias sem consultar seus aliados pois estas decisões logo poderão vir a ser contraditadas e se o soberano recuar, passará a imagem de um governante volúvel.

Concluindo, no capítulo XXIII de “O Príncipe”, Maquiavel está orientando o príncipe a respeito de quem ouvir e a quando ouvir.

E qual seria a relevância desta informação para os dias de hoje?

Ora, vivemos num mundo globalizado e “conectado”. Não é mais novidade que a informação está cada vez mais barata e acessível a todos. Por um lado, isto é um progresso para humanidade. O lado negativo é que tal condição se torna um campo fértil para a disseminação das chamadas “Fake News” (notícias falsas). E, ao que percebemos, isto está cada vez mais sem controle (TAVARES, 2018).

Assim sendo, se um administrador de empresas, profissional liberal ou trabalhador comum tomar decisões baseado no grande e confuso mosaico de informações surgindo por todos os lados, fatalmente será induzido a algum tipo um erro. Quanto mais então aqueles que governam um povo e administram uma nação. Neste contexto fica claro que tal conselho de Maquiavel não poderia ser mais atual e relevante para os dias atuais.

Referências:
JÚNIOR, Antonio De Freitas. O pensamento político de Maquiavel. Senado.leg.br, Brasília, p. 1-7, set. 2018. Disponível em: <http://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/141333/R174-10.pdf>. Acesso em: 27 set. 2018.

MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. 3 ed. São Paulo: Martina Fontes, 2004. 182 p.
TAVARES, Vagner Teodoro. O problema das fake news e o seu controle judicial. Migalhas, jun. 2018. Disponível em: <https://www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI282017,91041-O+problema+das+fake+news+e+o+seu+controle+judicial>. Acesso em: 24 set. 2018.

CATTER, Miguel. Para cientista, Maquiavel é fundamental para o bom político. Exame, São Paulo, n. 1150, nov. 2017. Disponível em: <https://exame.abril.com.br/brasil/herdeiros-de-maquiavel/>. Acesso em: 25 set. 2018.


WEBARTIGOS. Maquiavel: o precursor da ciência política. Disponível em: <https://www.webartigos.com/artigos/maquiavel-o-percusor-da-ciencia-politica/4554>. Acesso em: 25 set. 2018.

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